Entenda os princípios que norteiam a gestão da organização estadunidense por trás do gigante inglês
Nesta quarta-feira (15), notícia divulgada pelo Globo Esporte agitou o cenário do futebol nacional: a associação do Vasco entrou com ação na justiça contra a 777 Partners e a Fenway Sports Group (FSG) — dona do Liverpool — é uma das empresas que fizeram sondagem para comprar a parcela do clube que pertence à empresa norte-americana.
Há muito a ocorrer ainda para que a troca no controle da SAF do clube carioca seja uma possibilidade real. Existe também o interesse de outras partes em adquirir as ações, como uma companhia do grupo Crefisa.
Ainda assim, mínima possibilidade de ter a FSG no comando do Vasco animou muitos torcedores, que sonham em repetir o sucesso recente que o Liverpool conseguiu sob a tutela da empresa.
Se engana, porém, quem pensa que o caminho para as glórias foi curto e tranquilo. Pelo contrário, a paciência foi um dos aspectos-chave para o êxito do trabalho. Confira abaixo alguns dos pilares e exemplos que moldaram a nova fase dos Reds e que podem fazer parte do futuro cruz-maltino.
1. A visão de Michael Edwards
O projeto da FSG no time de Anfield não foi sempre uma constante. Ele oscilou em termos de metodologias e resultados. Em alguns momentos, o clube apostou em um volume alto de contratações com perfis diferentes entre promessas, veteranos e estrelas controversas. Nesse caminho, muitas delas deram errado.
Um dos principais responsáveis por solidificar valores para a gestão do futebol, nesse sentido, foi Michael Edwards. O inglês, que já trabalhava no Liverpool, assumiu como Diretor Esportivo, em 2016, e junto a Jürgen Klopp pavimentou a estrada para o sucesso da instituição.

Hoje, ele é o CEO de Futebol da empresa, que optou por confiar um papel maior a ele sob pretexto de construir um conglomerado multiclubes. O britânico sempre se mostrou um dirigente que busca embasar suas decisões em dados.
Além disso, ele nunca se seduziu por investir em contratações de grandes estrelas, nomes que poderiam abalar a filosofia do time de pensar no coletivo. Sua prioridade sempre demonstrou ser ter atletas capazes de impactar o elenco de imediato, mas com projeção para saltar de nível no médio ou longo prazo.
2. Estabilidade de técnicos
Ainda antes da ascensão interna de Edwards, demitir treinadores não era a especialidade da FSG. Exceto por Roy Hodgson, que era o comandante quando a compra dos Reds foi finalizada, todos os outros técnicos tiveram mais de um ano a frente da equipe.
Kenny Dalglish, um dos maiores ídolos da instituição, chegou em janeiro de 2011 e foi demitido em maio de 2012, ao fim da temporada. Seu sucessor foi Brendan Rodgers, que ficou no clube da metade de 2012 até outubro de 2015. Ele não conquistou nenhum troféu, mas passou perto do título da Premier League 2013/14.
Depois da demissão do norte-irlandês, chegou Klopp que está há cerca de nove anos no comando dos Reds. Foi o próprio alemão que optou por sair neste ano. Seu substituto será o holandês Arne Slot.
3. Scout
Como gosta Michael Edwards, o scout é parte fundamental do sucesso do Liverpool e certamente ganhará relevância no Vasco, caso a FSG tome o controle do clube. Por meio do monitoramento próximo de jogadores, o time pôde fazer contratações de impacto por baixos valores como Andrew Robertson, Mohamed Salah, Diogo Jota e, como um exemplo mais recente, Wataru Endo.
Nem todos os jogadores contratados sob esse aspecto renderam, mas o princípio seguiu inalterado e trouxe muito mais benefícios do que prejuízos nesse tempo. A idade também é um aspecto crucial nesse mapeamento de mercado.
Das 14 contratações que o clube fez nos últimos quatro anos, somente um tinha mais de 30 anos, o próprio Endo, que surgiu como uma opção de emergência após a investida frustrada por Moisés Caicedo.
4. Postura rígida em negociações
Seja para vender ou para comprar, o Liverpool não alivia nas negociações. A venda de Philippe Coutinho ao Barcelona foi um exemplo. Resistindo à vontade do atleta, o clube se aproveitou do mercado inflacionado e conseguiu um valor absurdo na transação, além de tê-lo mantido na equipe o máximo possível, até janeiro de 2018.

A compra de Virgil van Dijk também é outra boa história. O Southampton não queria negociar o atleta, mas os Reds insistiram por mais de seis meses na ideia e conseguiram um reforço que mudou a história da equipe.
Além da perseverança nos casos, há uma sensação geral de que o time tem um saldo positivo grande em termos de negociações. Nomes como Salah, Jota, Luis Díaz, Sadio Mané, Roberto Firmino e Alexis Mac Allister todos custaram por volta de £ 40 milhões. É um padrão de cifra “okay” para o mercado inglês, ainda que se considere os diferentes períodos das transações.
5. Gasto moderado
Os torcedores do Vasco não devem esperar que a FSG despeje “dinheiro infinito” no clube caso haja negócio entre as partes no futuro. A gestão do gigante inglês sempre se caracterizou por uma moderação nos gastos.
Por poucas vezes ao longo desses mais de dez anos a empresa norte-americana aprovou gastos exorbitantes, como os casos das compras de Van Dijk, Dominik Szoboszlai e Darwin Núñez.
Prova disso é que, na última década, os Reds são o time do Big Six que tem o menor “saldo negativo” no mercado, ou seja, aquele que detém o melhor equilíbrio entre gasto e arrecadação com a negociação de jogadores.
Segundo levantamento do Observatório de Futebol do CIES, o Liverpool é apenas o 12º clube da Europa com o pior saldo no quesito. É uma posição relevante para quem conseguiu tanto retorno esportivo recentemente.
